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Mostrando postagens de maio, 2012

Quem tem medo de dizer não? - Ruth Rocha

A gente vive aprendendo A ser bonzinho, legal, A dizer que sim pra tudo, A ser sempre cordial... A concordar, a ceder, A não causar confusão, A ser vaca-de-presépio Que não sabe dizer não! Acontece todo dia Pois eu mesma não escapo, De tanto ser boazinha, To sempre engolindo sapo... Como coisas que não gosto, Faço coisas que não quero... Deste, jeito minha gente, Qualquer dia eu desespero... Já comi pamonha e angu, Comi até dobradinha... Comi mingau de sagu Na casa de uma vizinha... Comi fígado e espinafre, De medo de dizer não. Qualquer dia, sem querer, Vou ter de comer sabão! Eu não sei me recusar, Quando me pedem um favor. Eu sei que não vou dar conta Dizer não é um horror! E no fim não faço nada E perco toda a razão. Fico mal com todo mundo Só consigo amolação. Quando eu estudo a lição E o companheiro não estuda, Na hora da prova pede Que eu dê a ele uma ajuda. Embora ache desaforo Não consigo negar... Meu Deus como sou boazinha... Vi...

Tragédia no Lar - Castro Aves

Na Senzala, úmida, estreita, Brilha a chama da candeia, No sapé se esgueira o vento. E a luz da fogueira ateia. Junto ao fogo, uma africana, Sentada, o filho embalando, Vai lentamente cantando Uma tirana indolente, Repassada de aflição. E o menino ri contente… Mas treme e grita gelado, Se nas palhas do telhado Ruge o vento do sertão. Se o canto pára um momento, Chora a criança imprudente … Mas continua a cantiga … E ri sem ver o tormento Daquele amargo cantar. Ai! triste, que enxugas rindo Os prantos que vão caindo Do fundo, materno olhar, E nas mãozinhas brilhantes Agitas como diamantes Os prantos do seu pensar … E voz como um soluço lacerante Continua a cantar: “Eu sou como a garça triste “Que mora à beira do rio, “As orvalhadas da noite “Me fazem tremer de frio. “Me fazem tremer de frio “Como os juncos da lagoa; “Feliz da araponga errante “Que é livre, que livre voa. “Que é livre, que livre voa “Para as bandas do seu ninho, “E nas braúna...

Maternidade e Paz - Autor Desconhecido

Há um momento em que há paz É quando a voz quente da mulher Entoa uma canção de ninar Junto ao leito do filho. Cessam lá fora todos os canhões de guerra, Só a canção ressoa Cessam os gritos As angústias, os medos Só a voz sublime da mãe embala a canção, E o filho dorme. A mão que embala o berço embala o mundo. Há um momento que há FÉ! É quando a voz terna da mulher Murmura uma prece. Uma prece pela paz do menino! Pela paz de todas as crianças, Pela paz dos homens, da cidade, De toda humanidade. Uma prece que sai lá do fundo da essência Da mulher mãe. Uma prece que pede para Deus iluminar a obra Do adulto sobre os pequeninos. Uma prece sensibilizada que pede aos homens E a sociedade que respeitem a infância dos nossos pequenos. Há um momento em que há Esperança. É quando a mulher embala Ainda dentro de si Esse ciclo de uma nova vida Tu mãe, que num infindável gesto de embalar o teu filho, Nutrida de amor, fé e esperança. Que prepara o teu projeto de home...

Leito das Folhas Verdes - Gonçalves Dias

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo À voz do meu amor moves teus passos? Da noite a viração, movendo as folhas, Já nos cimos do bosque rumoreja. Eu, sob a copa da mangueira altiva Nosso leito gentil cobri zelosa Com mimoso tapiz de folhas brandas, Onde o frouxo luar brinca entre flores. Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco, Já solta o bogari mais doce aroma! Como prece de amor, como estas preces, No silêncio da noite o bosque exala. Brilha a lua no céu, brilham estrelas, Correm perfumes no correr da brisa, A cujo influxo mágico respira-se Um quebranto de amor, melhor que a vida! A flor que desabrocha ao romper d`alva Um só giro do sol, não mais, vegeta: Eu sou aquela flor que espero ainda Doce raio do sol que me dê vida. Sejam vales ou montes, lago ou terra, Onde quer que tu vás, ou dia ou noite, Vai seguindo após ti meu pensamento; Outro amor nunca tive: és meu, sou tua! Meus olhos outros olhos nunca viram, Não sent...

Meu anjo, Escuta - Gonçalves Dias

Meu anjo, escuta: quando junto à noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exala; Na voz da brisa quem murmura e fala Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu! Quando tu sentes lutuosa imagem D'aflito pranto com sombrio véu, Rasgado o peito por acerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho? — Quem te pinta amores Dum puro céu? Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguém te acorda do celeste arroubo, Na amenidade do silêncio teu, Quando tua alma noutros mundos erra, Se alguém descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu! Se alguém se aflige de te ver chorosa, Se alguém se alegra co'um sorriso teu, Se alguém suspira de te ver formosa O mar e a terra a enamorar e o céu; Se alguém definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu

História de um Crime - Castro Alves

Fazem hoje muitos anos Que de uma escura senzala Na estreita e lodosa sala Arquejava u'a mulher. Lá fora por entre as urzes O vendaval s'estorcia... E aquela triste agonia Vinha mais triste fazer. A pobre sofria muito. Do peito cansado, exangue, Às vezes rompia o sangue E lhe inundava os lençóis. Então, como quem se agarra Às últimas esperanças, Duas pávidas crianças Ela olhava... e ria após. Que olhar! que olhar tão extenso! Que olhar tão triste e profundo! Vinha já de um outro mundo, Vinha talvez lá do céu. Era o raio derradeiro. Que a lua, quando se apaga, Manda por cima da vaga Da espuma por entre o véu. Ainda me lembro agora Daquela noite sombria, Em que u'a mulher morria Sem rezas, sem oração!... Por padre — duas crianças... E apenas por sentinela Do Cristo a face amarela No meio da escuridão. Às vezes naquela fronte Como que a morte pousava E da agonia aljofrava O derradeiro suor... Depois acordava a mártir, Como quem tem um segre...

Adeus - Castro Alves

— Adeus — Ai criança ingrata! Pois tu me disseste — adeus —? Loucura! melhor seria Separar a terra e os céus. — Adeus — palavra sombria! De uma alma gelada e fria És a derradeira flor. — Adeus! — miséria! mentira De um seio que não suspira, De um coração sem amor. Ai, Senhor! A rola agreste Morre se o par lhe faltou. O raio que abrasa o cedro A parasita abrasou. O astro namora o orvalho: — Um é a estrela do galho, — Outro o orvalho da amplidão. Mas, à luz do sol nascente, Morre a estrela — no poente! O orvalho — morre no chão! Nunca as neblinas do vale Souberam dizer-se — adeus — Se unidas partem da terra, Perdem-se unidas nos céus. A onda expira na plaga... Porém vem logo outra vaga P'ra morrer da mesma dor... — Adeus — palavra sombria! Não digas — adeus —, Maria! Ou não me fales de amor! Disponível no site: www.dominiopublico.gov.br

Sobre a Morte - Daniela Martini

Num momento estamos juntos, felizes... Nossa vida não tem amanhãs.. Somente o hoje! Somos felizes Não sabemos Uma vida perfeita Pacata Alegrias Tristezas Brincadeiras Brigas Choros Abraços... Num repente tudo muda... O que antes era alegria vira imensa tristeza.. Algo muito forte e dolorido toma cena Se faz presente sem pedir licença. Fica um vazio Perguntas sem respostas Sonhos sem possibilidades de realizações... realizáveis talvez.. de outras formas somente. Abraços jamais repetidos Brincadeiras jamais prosseguidas Brigas jamais começadas... ou terminadas Choros jamais soluçados juntos Somente Só.... A morte... Não separa uma vida, ou duas.. Separa caminhos, que deixam de cruzar entre si, tomando uma imensa tristeza e angústia o seu lugar. A morte tem como o passado o seu aval... Nele repousam as memórias guardadas De um tempo que já não volta Memórias de fatos que nenhum filme conseguirá reproduzir... Sentimentos que ficaram lá atrás. Mas...

Soneto - Luís Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver; É ferida que dói e não se sente; É um contentamento descontente; É dor que dor que desatina sem doer; É um não querer mais que bem querer; É solitário andar por entre a gente; É nunca contentar-se de contente; É cuidar que se ganha em se perder; É querer estar preso por vontade; É servir a quem vence o vencedor; É ter com quem nos mata lealdade; Mas como causar pode seu favor Nos corações humanos a amizade; Se tão contrário a si é o mesmo amor???"

Soneto de Separação - Vinicius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma E das mãos espalmadas fez-se o espanto; De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez-se o drama; De repente não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente; Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente!

Soneto de Fidelidade - Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento Antes e com tal zelo, e sempre e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento; Quero vivê-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento; E assim quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama Eu possa me dizer do amor que tive; Que não seja imortal posto que é chama Mas que seja infinito ENQUANTO DURE!

"Folhas" - Autor Desconhecido

 Folhas Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzado nosso caminho. Algumas percorrem anos ao nosso lado, vendo muitas luas passarem, mas outras apenas vemos entre um passo e outro. A todas elas chamamos de AMIGO. Há muitos tipos de amigos. Talvez cada folha de uma árvore caracterize cada um deles. O primeiro que nasce do broto é o nosso amigo pai e a nossa amiga mãe, mostram-nos o que é ter vida. Depois vem o amigo irmão, com que dividimos espaço para que ele floresça como nós. Passamos a conhecer toda a família de folhas, a qual respeitamos e desejamos o bem. Mas o destino nos apresenta outros amigos, os quais não sabíamos que iam cruzar no nosso caminho. Muitos desses denominamos amigos do peito, do coração. São sinceros, são verdadeiros. Sabem quando não estamos bem, sabem o que nos deixa feliz. Ás vezes, um desses amigos do peito estala o nosso coração e então é chamando de amigo namorado. Esse dá brilho aos nossos olhos,...

"Borboletas" - Autor Desconhecido

Com o tempo você vai percebendo Que para ser feliz com outra pessoa Você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela Percebe também que aquela pessoa que você ama (Ou acha que ama), e que não quer nada com você Não é o Homem ou a Mulher da sua vida Você aprende a gostar de você A cuidar de você E principalmente a gostar de quem gosta de você " O segredo não é correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você!" No final das contas, você vai achar Não quem você estava procurando Mas quem estava procurando por você!

Reverência ao Destino - Autor Desconhecido

Falar é completamente fácil quando se têm palavras em mente que expressem uma opinião. Difícil é expressar por gestos e atitudes o que realmente queremos dizer, antes que a pessoa se vá. Fácil é julgar as pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias. Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já se fez muito errado. Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, dizer o que ele deseja ouvir. Difícil é ser amigo para todas as horas e dizer sempre a verdade quando for preciso e com confiança no que diz. Fácil é analisar a situação alheia e poder aconselhar. Difícil é vivenciar esta mesma situação e saber o que fazer, ou ter coragem para fazer. Fácil é demonstrar raiva e impaciência quando alguém te deixa irritado. Difícil é expressar seu amor a alguém que realmente te conhece, te respeita e te entende. E é assim que perdemos as pessoas especiais. Fácil é mentir para os quatro ventos o que tentamos camuflar. Difícil é mentir p...

Lembranças do Mundo Antigo - Carlos Drumond De Andrade

Clara passeava no jardim com as crianças O céu era verde sobre o gramado A água era dourada sobre as pontes Outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados. O guarda-civil sorria, passeavam bicicletas. A menina pisava a relva para pegar um pássaro. O mundo inteiro A Alemanha, a China tudo era tranqüilo ao redor de Clara. As crianças olhavam o céu. Não era proibido! A boca, o nariz; estavam sempre abertos! Não havia perigos! Os perigos que Clara temia eram a GRIPE, os INSETOS... Clara tinha medo de perder o bonde das 11h. Esperava cartas que custavam a chegar, Nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim pela manhã! Havia jardins, havia manhãs... NAQUELE TEMPO!!!

Donzela Assassinada - Cecília Meireles

Sacudia o meu lencinho Para estendê-lo a secar. Foi pelo mês de dezembro, Pelo tempo do Natal. Tão feliz que me sentia, Vendo as nuvenzinhas no ar, Vendo o sol e vendo as flores Nos arbustos do quintal, Tendo ao longe, na varanda, Um rosto para mirar! Ai de mim que suspeitaram Que lhe estaria a acenar! Sacudia o meu lencinho Para estendê-lo a secar. Lencinho lavado em pranto, Grosso de sonho e de sal, De noites que não dormira, Em minha alcova a pensar, - porque o meu amor é pobre de condição desigual. Era no mês de dezembro, Pelo tempo do Natal. Tinha o amor na minha frente Tinha a morte por detrás: Desceu meu pai pela escada Feriu-me com seu punhal. Prostrou-me a seus pés, de bruços, Sem mais força para um ai! Reclinei minha cabeça em bacia de coral. Não vi mais as nuvenzinhas Que pasciam pelo ar. Ouvi minha mãe aos gritos E meu pai a soluçar, Entre escravos e vizinhos - e não soube nada mais. Se voasse o meu lencinho Grosso de sonho e de sal, ...