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Mostrando postagens de janeiro, 2014

Testamento - Manuel Bandeira

O que não tenho e desejo É que melhor me enriquece. Tive uns dinheiros - perdi-os... Tive amores - esqueci-os. Mas no maior desespero Rezei: ganhei essa prece. Vi terras da minha terra. Por outras terras andei. Mas o que ficou marcado No meu olhar fatigado, Foram terras que inventei. Gosto muito de crianças: Não tive um filho de meu. Um filho!... Não foi de jeito... Mas trago dentro do peito Meu filho que não nasceu. Criou-me, desde eu menino Para arquiteto meu pai. Foi-se-me um dia a saúde... Fiz-me arquiteto? Não pude! Sou poeta menor, perdoai! Não faço versos de guerra. Não faço porque não sei. Mas num torpedo-suicida Darei de bom grado a vida Na luta em que não lutei!

Amar - Carlos Drummond de Andrade

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre e até de olhos vidrados amar? Que pode, pergunto o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia? Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o áspero, um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este é o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia d amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesmo de amor, e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Lira do amor romântico ou a eterna repetição - Carlos Drummond de Andrade

Atirei um limão n'água e fiquei vendo na margem. Os peixinhos responderam: Quem tem amor tem coragem. Atirei um limão n'água, antes não tivesse feito. Os peixinhos me acusaram de amar com falta de jeito. Atirei um limão n'água, de tão baixo ele boiou. Comenta o peixe mais velho: Infeliz quem não amou. Atirei um limão n'água, não fez o menor ruído. Se os peixes nada disseram, tu me terás esquecido? Atirei um limão n'água, de clara ficou escura. Até os peixes já sabem: você não ama: tortura. Atirei um limão n'água, e caí n'água também, pois os peixes me avisaram, que lá estava meu bem. Atirei um limão n'água, foi levado na corrente. Senti que os peixes diziam: Hás de amar eternamente.

Canção do dia de sempre - Mário Quintana

Tão bom viver dia a dia... A vida assim, jamais cansa... Viver tão só de momentos Como estas nuvens no céu... E só ganhar, toda a vida, Inexperiência... esperança... E a rosa louca dos ventos Presa à copa do chapéu. Nunca dês um nome a um rio: Sempre é outro rio a passar. Nada jamais continua, Tudo vai recomeçar! E sem nenhuma lembrança Das outras vezes perdidas, Atiro a rosa do sonho Nas tuas mãos distraídas...

Resolução - Bertold Brecht

Considerando nossa fraqueza os senhores forjaram Suas leis, para nos escravizarem. As leis não mais serão respeitadas Considerando que não queremos mais ser escravos Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e com canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria do que a morte. Considerando que ficaremos famintos Se suportarmos que continuem nos roubando Queremos deixar bem claro que são apenas vidraças Que nos separam deste bom pão que nos falta. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria que a morte. Considerando que para os senhores não é possível Nos pagarem um salário justo Tomaremos nós mesmos as fábricas Considerando que sem os senhores, tudo será melhor para nós. Considerando que os senhores nos ameaçam Com fuzis e canhões Nós decidimos: de agora em diante Temeremos mais a miséria que a morte.

Coleirinho - Luiz Gama

Canta, canta Coleirinho, Canta, canta, o mal quebranta; Canta, afoga mágoa tanta Nessa voz de dor partida; Chora, escravo, na gaiola Terna esposa, o teu filhinho, Que, sem pai, no agreste ninho, Lá ficou sem ti, sem vida. Quando a roixa aurora vinha Manso e manso, além dos montes, De oiro orlando os horizontes, Matizando as crespas vagas, - Junto ao filho, à meiga esposa Docemente descantavas, E na luz do sol banhavas Finas penas - noutras plagas. Hoje triste já não trinas, Como outrora nos palmares; Hoje, escravo, nos solares Nao te embala a dúlia brisa; Nem se casa aos teus gorjeios O gemer das gotas alvas - Pelas negras rochas calvas - Da cascata que desliza. Não te beija o filho tenro, Não te inspira a fonte amena, Nem da lua a luz serena Vem teus ferros pratear. Só de sombras carregado, Da gaiola no poleiro Vem o tredo cativeiro, Mágoa e prantos acordar. Canta, canta Coleirinho, Canta, canta, o mal quebranta; Canta, afoga mágoa tanta Nessa vo...