Ruínas - Daniel Gtr
As paredes de casa estão úmidas
e já não resistem a ação do Tempo.
Sentado em minha cama, vejo
o reboco do teto cedendo
e rachaduras que destoam a pintura.
Sobre minha coxa, cai a poeira,
fruto do desgaste de meu teto.
A cada reflexão, uma rachadura nova;
juntas, criam um mapa de lembranças,
fruto da umidade de meu tempo.
À minha frente, está uma ampulheta,
o teto se desfalece no mesmo ritmo
da areia que cai dentro dela.
Há pouca areia na ampulheta,
mas muita poeira que me sufoca.
O teto cede por inteiro.
Do andar de cima, vêm abaixo
os móveis, vasos e tapetes;
vêm à tona também os livros e as fotografias.
Tudo se desmancha e vira pó dentro de minha casa
A poeira é tão intensa que suja toda a noite.
É difícil respirar e a visão fica turva,
nem mais a ampulheta consigo ver com nitidez.
Há tanta poeira sobre mim que é impossível levantar-me,
ela me devora e pesa-me como chumbo.
Não há mais teto,
tampouco o andar de cima;
não há o que me proteja da chuva.
A água não serve para limpar a poeira,
antes cria barro em todo o quarto.
Sem mais o meu teto, dá pra ver
as estrelas no firmamento, mas, elas não brilham,
o vento espalhou a poeira e toda a noite ficou opaca.
A chuva fica mais forte,
além do teto, fará desabar o céu!
Na tempestade, não cai mais água, é a areia da ampulheta.
A noite esvanece, desfalece, vira pó!
As estrelas, a lua, os astros e todo firmamento
desfarelam e caem sobre meu corpo.
Tudo que é matéria implode dentro do meu quarto.
Não há mais céu, não mais mais casa,
não há nem trevas...
Somente o nada.
Levanto-me, giro a ampulheta, volto a sentar-me
e espero uma nova ruína.
Fonte: http://www.danielgtr.com/poemas/ruina.html
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