Coleirinho - Luiz Gama

Canta, canta Coleirinho,
Canta, canta, o mal quebranta;
Canta, afoga mágoa tanta
Nessa voz de dor partida;
Chora, escravo, na gaiola
Terna esposa, o teu filhinho,
Que, sem pai, no agreste ninho,
Lá ficou sem ti, sem vida.

Quando a roixa aurora vinha
Manso e manso, além dos montes,
De oiro orlando os horizontes,
Matizando as crespas vagas,
- Junto ao filho, à meiga esposa
Docemente descantavas,
E na luz do sol banhavas
Finas penas - noutras plagas.

Hoje triste já não trinas,
Como outrora nos palmares;
Hoje, escravo, nos solares
Nao te embala a dúlia brisa;
Nem se casa aos teus gorjeios
O gemer das gotas alvas
- Pelas negras rochas calvas -
Da cascata que desliza.

Não te beija o filho tenro,
Não te inspira a fonte amena,
Nem da lua a luz serena
Vem teus ferros pratear.
Só de sombras carregado,
Da gaiola no poleiro
Vem o tredo cativeiro,
Mágoa e prantos acordar.

Canta, canta Coleirinho,
Canta, canta, o mal quebranta;
Canta, afoga mágoa tanta
Nessa voz de dor partida;
Chora, escravo, na gaiola
Terna esposa, o teu filhinho,
Que sem pai, no agreste ninho,
Lá ficou sem ti, sem vida.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Donzela Assassinada - Cecília Meireles

Os Votos - Sérgio Jockymann

Quando encontrar alguém e esse alguém...- Selma Soares Albuquerque