Canção para a menina maltratada - Celso Gutfreind

Não, não será com métrica
nem com rima.

Uma coisa sem nome violentou uma menina.

Ação barata sem a prata
do pensamento
o ouro do sentimento
o dia da empatia.

Noite.

Uma coisa.

Não era o lobo
nem o ogro nem a bruxa,
era a fúria do real
sem o carinho do símbolo.

Stop, a poesia parou.
Ou foi a humanidade?

Stop nada, a menina sente e segue
com métrica, rima, graça, vida.

Onde está tua vitória, ignomínia?

Uma prosa continua
poética como era
saltitante o bastante
para não perder a poesia.

A coisa (homem?) é punida como um lobo
no conto de verdade. E imprime-se um nome
na ignomínia.

A menina liberta expressa
ri e chora, volta a ser
qualquer (única) menina.

Pronta para a métrica
pronta para a rima
pronta para a vida
(canto de cicatriz),
pronta para o amor a dois,
à espera, suave, escolhido.

OBS: Poema retirado do Documentário: Canto de Cicatriz, direção Laís Chaffe: ATENA Produções.

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